
Controlar os custos do plano de saúde sem comprometer o acesso dos colaboradores aos cuidados necessários é um dos principais desafios para as empresas. Nesse cenário, a coparticipação aparece como uma ferramenta para estimular o uso mais consciente dos serviços médicos e ajudar na gestão das despesas.
Ao mesmo tempo, aplicar esse mecanismo de forma indiscriminada pode criar uma barreira para consultas e exames importantes, especialmente aqueles relacionados à prevenção. Por isso, o desafio não está apenas em reduzir a utilização do plano, mas em encontrar um equilíbrio entre sustentabilidade financeira, acesso e cuidado com a saúde.
Essa discussão ganhou força recentemente no mercado. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Raquel Reis, CEO da SulAmérica Saúde e Odonto, defendeu a coparticipação, mas propôs que determinados exames preventivos fossem isentos da cobrança. A ideia ajuda a ilustrar uma questão cada vez mais relevante para os gestores: como utilizar mecanismos de controle de custos sem desestimular justamente os cuidados que podem contribuir para a prevenção?
Para o RH, a resposta passa por uma gestão mais estratégica do benefício, baseada não apenas no quanto a empresa gasta, mas também em como os colaboradores utilizam o plano e quais medidas podem melhorar essa jornada.
A coparticipação é um mecanismo pelo qual o beneficiário participa de parte das despesas relacionadas a determinados procedimentos realizados pelo plano.
Na prática, além da mensalidade, o usuário pode pagar um valor ou percentual previsto em contrato quando realiza uma consulta, exame ou outro procedimento. A ANS reconhece a coparticipação como um dos mecanismos financeiros de regulação dos planos de saúde.
O funcionamento, porém, depende das condições contratadas. Por isso, empresas e colaboradores precisam conhecer as regras específicas do plano, incluindo quais procedimentos estão sujeitos à cobrança e como os valores são calculados.
A lógica por trás do modelo é criar uma participação do beneficiário nos custos e, ao mesmo tempo, estimular uma utilização mais consciente dos serviços.
Entretanto, essa estratégia exige equilíbrio.
Um dos argumentos favoráveis à coparticipação é justamente a possibilidade de reduzir o uso inadequado dos serviços de saúde.
Quando o beneficiário não participa de nenhum custo associado à utilização, pode existir maior incentivo para buscar determinados serviços sem avaliar a real necessidade ou a alternativa mais adequada para cada situação.
A coparticipação pode funcionar, portanto, como um mecanismo de conscientização sobre a utilização do benefício.
Imagine, por exemplo, um colaborador que procura repetidamente um pronto-socorro para situações de baixa complexidade que poderiam ser resolvidas em uma consulta ambulatorial. Um modelo de gestão que estimule o direcionamento adequado pode contribuir para uma utilização mais racional da rede.
Isso não significa que o objetivo deva ser fazer o colaborador utilizar menos o plano.
O objetivo deveria ser utilizar melhor.
Essa distinção é importante porque a redução indiscriminada da utilização pode produzir um efeito contrário ao esperado. Se o beneficiário deixa de procurar atendimento quando realmente precisa, a empresa pode enfrentar problemas ainda maiores no futuro.
É justamente nesse ponto que a discussão levantada pela SulAmérica ganha relevância.
Na entrevista à Folha, Raquel Reis defendeu a coparticipação, mas propôs que um conjunto de exames preventivos anuais não tivesse a cobrança. Entre os exemplos mencionados pela executiva estão rastreamentos relacionados aos cânceres de colo do útero e de mama.
A lógica por trás da proposta é que determinados cuidados não deveriam ser desestimulados pelo custo.
Imagine uma colaboradora que precisa realizar um exame preventivo, mas decidiu adiá-lo porque considera a cobrança da coparticipação desnecessária naquele momento.
O adiamento pode parecer uma economia pequena no curto prazo. Porém, quando um problema de saúde é identificado mais tarde, o tratamento pode exigir acompanhamento mais complexo.
Isso não significa que todo exame preventivo necessariamente reduzirá os custos futuros do plano. No entanto, o acompanhamento adequado pode contribuir para identificar determinadas condições mais cedo e permitir que o cuidado aconteça no momento apropriado.
Por isso, a prevenção precisa fazer parte da discussão sobre gestão de custos.
Quando uma empresa analisa seu plano de saúde apenas pelo valor da mensalidade e pela sinistralidade, pode deixar de enxergar uma parte importante da equação.
A prevenção também influencia a jornada de saúde dos colaboradores.
Consultas de acompanhamento, exames indicados para determinadas faixas etárias e avaliações médicas podem ajudar a identificar fatores de risco e condições de saúde que exigem atenção.
Além disso, o próprio Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS estabelece consultas, exames, tratamentos e outros procedimentos que devem ser oferecidos pelos planos conforme a segmentação contratada.
Para as empresas, portanto, o desafio não está simplesmente em reduzir a utilização.
Está em diferenciar utilização necessária, prevenção e desperdício.
Essa distinção permite que o benefício seja administrado de maneira mais estratégica.
Para os gestores de Recursos Humanos, a discussão sobre coparticipação no plano de saúde envolve uma equação complexa.
De um lado, existe a necessidade de controlar o crescimento das despesas médicas. De outro, a empresa precisa oferecer um benefício que os colaboradores consigam utilizar de maneira adequada.
Uma política que dificulta indiscriminadamente o acesso pode gerar insatisfação e incentivar o adiamento de cuidados importantes.
Por outro lado, um modelo sem mecanismos de gestão pode dificultar o controle dos custos e aumentar a pressão sobre o orçamento de benefícios.
Por isso, a pergunta mais importante não deveria ser simplesmente "coparticipação é boa ou ruim?"
A questão é:
Como estruturar a coparticipação para estimular uma utilização mais consciente sem desestimular a prevenção e o cuidado com a saúde?
Antes de modificar a estrutura de um plano de saúde, a empresa precisa entender como os colaboradores utilizam o benefício.
Os dados podem mostrar, por exemplo, quais procedimentos concentram maior frequência, quais tipos de atendimento geram mais despesas e onde existem oportunidades de direcionamento.
Se uma parcela significativa dos atendimentos acontece em pronto-socorros por situações de baixa complexidade, pode existir espaço para incentivar outros canais de atendimento.
Da mesma forma, se a empresa identifica baixa adesão a determinados programas preventivos, pode investigar quais fatores estão dificultando o acesso.
Essa análise permite que o RH deixe de tomar decisões baseadas apenas no valor da mensalidade e passe a considerar o comportamento de utilização do benefício.
Além disso, a empresa consegue avaliar se determinada mudança realmente melhora a eficiência do plano ou apenas transfere parte do custo para o colaborador.
A discussão sobre coparticipação no plano de saúde mostra que a gestão de benefícios não pode se resumir à busca pelo menor custo possível.
Uma empresa precisa controlar despesas, mas também precisa garantir que o benefício cumpra sua função.
Nesse contexto, a prevenção ocupa um espaço importante.
A proposta defendida pela CEO da SulAmérica coloca justamente esse equilíbrio em evidência: utilizar a coparticipação para estimular uma utilização mais racional, mas evitar que o mecanismo desestimule cuidados preventivos considerados relevantes.
Para o RH, essa discussão representa uma oportunidade de olhar para o plano de saúde de maneira mais estratégica.
Em vez de perguntar apenas quanto a empresa está gastando, é importante entender onde o dinheiro está sendo gasto, por que está sendo gasto e quais medidas podem melhorar a jornada de saúde dos colaboradores.
A coparticipação pode fazer parte de uma estratégia de gestão do plano de saúde, mas sua eficiência depende de uma análise mais ampla.
Ao acompanhar dados de utilização, perfil dos colaboradores, custos assistenciais e oportunidades de prevenção, a empresa consegue tomar decisões mais equilibradas.
Assim, controlar despesas e promover saúde deixam de ser objetivos opostos.
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